Uma das consequências de começar a ir atrás de se virar com as próprias pernas, depender menos do Estado e entender melhor de economia é o isolamento social e a revolta que sinto cada vez que ouço conversas fúteis, vejo comentários idiotas sobre dinheiro e principalmente observo o comportamento das pessoas com quem convivo com relação a independência financeira e planos de vida.
O Brasil vem de um passado onde a economia era uma merda completa, os governantes eram e são o que há de pior na face da Terra e a escola desde a época da ditadura é um antro de professores marxistas. Dito isso, não é nenhuma surpresa constatar que:
- brasileiro não entende nada de economia
- brasileiro não sabe lidar com dinheiro
- brasileiro não faz a menor idéia de como funciona o dinheiro
- brasileiro não faz idéia se o dinheiro possui lastro real
- brasileiro não entende como funciona a dívida pública
- brasileiro não entende o PIB
- brasileiro não sabe explicar o papel do Estado
- brasileiro não sabe os impostos que paga
- brasileiro não faz questão nenhuma de saber nada disso que eu falei
- brasileiro mesmo assim opina sobre tudo isso que eu falei
O que mais me deixa triste com relação a tudo isso é que esse tipo de perfil não é restrito ao brasileiro pobre ou sem instrução. Ao contrário, os que mais se metem a falar sobre economia sem saber são pessoas com faculdade, de famílias de classe média ou ricas, que nunca passaram necessidade e que não deixam de comprar o último Iphone, nem que seja em 24x.
A consequência de tudo isso, pelo menos pra mim, é que às vezes eu me sinto completamente sozinho e sem ter com quem conversar sobre o que penso. Veja bem, não sou nenhum intelectual nem profissional nem especialista em porra nenhuma sobre economia, mas procuro me informar bastante, ler livros sobre o assunto, entender a fundo questões sobre o papel do Estado, impostos, formação de patrimônio. São assuntos corriqueiros e pelo menos pra mim, essenciais para sobreviver ao Brasil de hoje. Entender com clareza qual é a herança deixada pelo PT, qual o estrago causado pelas distorções na economia da tal nova matriz econômica da Dilma, refletir sobre a necessidade real do salário mínimo, da pesadíssima CLT, do buraco negro que são os gastos públicos com saúde, educação e infraestrutura.
Essa visão foi reforçada com a leitura do livro As vantagens do pessimismo, que eu terminei recentemente. O livro mostra como é importante ter essa visão crítica sobre assuntos econômicos e políticos para não nos deixarmos cair na lábia de políticos utópicos e vendedores de ilusões. Uma dose correta de pessimismo pode tornar as pessoas mais racionais e escapar de armadilhas que a história já provou inúmeras vezes. O socialismo é basicamente uma ilusão gigante de que é possível atingir uma espécie de nirvana existencial coletivo, contanto que todos abram mão de seus desejos individuais e queiram se tornar formigas niilistas, todas unidas num objetivo comum de serem nada e desejarem o nada, de viverem pelos outros em troca de nada e nada mais.
Eu hoje consegui acumular um patrimônio que considero razoável, mas que perto de outras pessoas eu pareceria um multimilionário. Não fiz nada além do que considero minha obrigação como ser humano independente, racional e livre. Meu objetivo com isso não é de gastar tudo com inutilidades, luxos ou ostentações, mas sim de me desamarrar da obrigação de trabalhar com o que eu não gosto, de não precisar adular nenhum político, de compreender melhor o funcionamento do mundo em geral, de garantir uma aposentadoria digna e honesta, onde eu não dependa do que é extorquido dos que trabalham.
Como todo nerd, gosto muito de ler notícias sobre games, filmes e entretenimento em geral. Mas essa diversão se tornou um stress absurdo quando vejo os ~jornalistas~ da área opinando sobre falta de ministras mulheres no governo Temer, puxando saco de feministas histéricas que se ofendem por qualquer coisa e tentam assassinar reputações de pessoas, discutindo progressismo e representatividade em videogames. Puta que pariu. Eu quero jogar videogame porra. Não quero saber se as mulheres estão bem representadas no jogo X. Não quero discutir se o protagonista do filme Y deveria ser negro. Eu não ligaria se eu controlasse um travesti num jogo de tiro, contanto que exista uma boa razão para isso ao invés de ser algo puramente para agradar alguma porcaria de jornalista inútil que acha que sua opinião é valiosíssima. Essa área de jornalismo geek é um barato: todo mundo pensa igualzinho. É a mesmíssima opinião sobre feminismo, meritocracia, Donald Trump, Dilma, cotas estudantis... quem pensa diferente é enxotado da panelinha. Imagine agora como deve ser a redação de um jornal de verdade. Nada muito diferente disso. Chegamos ao ponto de estarmos nessa merda completa no Brasil e ocorrerem debates nesse meio geek sobre arranjar uma namorada pra Elza do Frozen. Talvez o grande problema do Brasil seja a falta de homossexuais em desenhos infantis?

Pseudo-jornalista gamer solicitando que a Blizzard suspendesse uma campanha promocional de um novo jogo com Danilo Gentili pois na opinião dela ele é uma espécie de demônio homofóbico racista misógeno
Não consigo mais frequentar sites ou ouvir podcasts sobre coisas nerds no Brasil. Não consigo mais ouvir pessoas conversando sobre financiamentos ou estratégias estúpidas pra adquirir patrimônio. Não aguento brigas familiares por causa de quinhentos reais. Me irrito quando ouço colegas de trabalho discutindo sobre como gastar o mais rápido possível qualquer dinheiro extra. Me estresso quando minha família e amigos enchem o meu saco e tentam opinar na minha vida sobre como eu deveria usar o meu dinheiro.
Já tentei disseminar algumas coisas que aprendi sobre dinheiro e investimentos. Fiz até slides e apresentei para algumas pessoas. Indiquei livros. Tentei abrir a cabeça sobre o funcionamento do dinheiro. Não consegui nada além de um ou outro começar a colocar uma merreca no Tesouro Direto para aposentadoria. E a maioria deles ainda defende que a Luciana Genro ou a Marina Silva seriam boas opções para 2018. Achei que com o tempo o perfil das pessoas acabaria mudando, mas não é o que está acontecendo.
Quanto mais estudamos e entendemos sobre economia e política mais nos distanciamos do resto das pessoas com que convivemos e toleramos menos as idiotices que são disseminadas como verdades irretocáveis. Toda uma geração de pessoas mais interessadas em adorar o Estado e continuar dependendo dele do que encarar a realidade e andar com as próprias pernas. O futuro dirá quem tem razão.